O que o medo esconde: sobre o passado como raiz do presente
- 18 Sep, 2026
Há um tipo específico de medo que não se anuncia como medo. Ele se disfarça de pressa, de distração, de uma vontade quase virtuosa de “seguir em frente”. É o medo de olhar para trás. Não por saudosismo, mas porque olhar para trás exige admitir que o presente não caiu do céu. Que ele tem raízes, e que essas raízes muitas vezes estão em solo que preferiríamos não revisitar.
O bloqueio diante do passado raramente é ignorância. É “evitação”. Sabemos, em algum nível, que ali há algo, uma decisão, uma perda, uma covardia pequena e cotidiana, que, se reconhecida, mudaria a forma como entendemos quem somos agora. E é justamente essa mudança que tememos, mais do que o próprio fato passado.
A memória não é arquivo, é força viva
O filósofo francês Henri Bergson propôs uma distinção que continua incômoda: a de que a memória não funciona como um depósito onde os fatos ficam parados, à espera de serem consultados. Para ele, o passado não fica atrás de nós; ele nos atravessa, se infiltra na percepção presente, colore o que vemos antes mesmo de sabermos que estamos vendo por meio dele. Bergson chamava essa duração vivida de “durée”: o tempo como fluxo contínuo, não como uma sequência de instantes separáveis que podemos simplesmente descartar.
Se isso é verdade, então a tentativa de “deixar o passado para trás” é, estritamente, impossível. O que fazemos, quando tentamos isso, não é apagar o passado, é empurrá-lo para fora da consciência, onde ele continua operando, agora sem que possamos negociar com ele. O medo, nesse sentido, não nos protege do passado. Apenas nos rouba a capacidade de conduzi-lo.
[!reflexão] Talvez o que chamamos de “trauma não resolvido” seja exatamente isso: passado que continua agindo porque nunca foi autorizado a ser lembrado, apenas a ser temido.
Lançados sem escolha
Há uma palavra alemã difícil de traduzir bem: Geworfenheit, a condição de “ser-lançado”. O filósofo Martin Heidegger a utilizava para descrever algo elementar da existência humana: nós não escolhemos o momento em que nascemos, a língua que herdamos, a família, o corpo, as circunstâncias que nos formaram antes de termos qualquer capacidade de consentir com elas. Somos, antes de tudo, resultado de um lançamento que não solicitamos.
Isso é desconfortável porque fere uma fantasia muito cara ao presente: a de que somos autores exclusivos de nós mesmos, que o passado é apenas material bruto que podemos editar ou descartar conforme a narrativa que preferimos contar. Heidegger sugeria o oposto: a autenticidade não está em negar essa condição de lançados, mas em assumi-la, reconhecer que já estamos em movimento, já carregando um passado, antes mesmo de decidirmos o que fazer com ele. O medo do passado é, no fundo, o medo de não ser o autor absoluto da própria história. Mas essa autoria absoluta nunca existiu; existe apenas a possibilidade, mais modesta e mais honesta, de retomar o que já nos formou e dar a isso um sentido novo.
Ir buscar o que ficou para trás
Entre os povos akan, da região que hoje corresponde a Gana, existe um símbolo “adinkra” chamado “Sankofa”, geralmente representado por um pássaro que olha para trás enquanto seus pés seguem em frente, ou carregando um ovo no bico. O provérbio associado a ele diz, em tradução aproximada, que não é vergonha voltar para buscar o que foi esquecido, que se pode e se deve retornar ao passado para recuperar aquilo que é necessário ao futuro.
“Sankofa” recusa uma linearidade ingênua do tempo, aquela que imagina o futuro como progresso automático que só se realiza apesar do passado. Propõe, em vez disso, que o futuro só é fértil quando carrega conscientemente o que veio antes, inclusive o que doeu, inclusive o que faltou. Não se trata de viver voltado para trás, mas de entender que o movimento para frente que ignora as próprias raízes é movimento cego, sujeito a repetir aquilo mesmo que tentou evitar.
Essa é uma diferença sutil e importante em relação ao bloqueio: “Sankofa” não pede que se permaneça no passado, pede que se vá até ele com intenção, colha o que serve, e volte. É uma ida deliberada, não uma queda involuntária.
O anjo que não pode fechar as asas
Há uma imagem célebre do crítico alemão Walter Benjamin: a de um anjo da história, que olha para o passado enquanto uma tempestade o empurra, contra sua vontade, para o futuro. O anjo vê, no que chamamos de progresso, uma única catástrofe contínua, escombros se acumulando aos seus pés, e gostaria de parar, de recompor o que foi quebrado, mas o vento não permite que ele feche as asas.
Essa imagem serve como advertência contra dois erros simétricos. O primeiro é o do bloqueio: fingir que não há tempestade, que se pode simplesmente decidir não olhar para os escombros. O segundo é o oposto: ficar paralisado diante deles, incapaz de seguir. Benjamin não oferece conforto fácil: sugere que a consciência histórica lúcida convive com o desconforto de ver claramente o que ficou para trás e ainda assim seguir, carregando essa visão, não apesar dela.
Uma identidade que se conta, não que se possui
O filósofo francês Paul Ricoeur ofereceu uma saída conceitual interessante para esse impasse: a ideia de que a identidade pessoal não é uma substância fixa que simplesmente existe, mas uma narrativa, algo que construímos ao tecer os fatos do passado numa história que faça sentido, sem por isso falsificá-los. Para Ricoeur, contar a própria história não é inventá-la livremente, mas também não é reproduzi-la como uma crônica neutra de fatos desconectados. É um trabalho de composição: dar aos acontecimentos passados um enredo que permita que o presente os herde sem ser esmagado por eles.
Essa ideia desloca o problema do medo. Não se trata de “aceitar o passado” como quem engole algo amargo de uma vez. Trata-se de um trabalho contínuo, quase artesanal, de reinterpretação, no qual o mesmo fato passado pode, ao longo da vida, ocupar lugares narrativos diferentes: de ferida a lição, de vergonha a origem, de ruptura a fundação. O passado não muda; muda a relação viva que mantemos com ele. E é exatamente essa relação, não o fato em si, que determina se o passado nos aprisiona ou nos sustenta.
Arremate, sem nostalgia
O bloqueio diante do passado costuma se apresentar como proteção, como se esquecer, ou simplesmente não revisitar, fosse um gesto de cuidado consigo mesmo. Mas talvez seja o oposto: talvez seja exatamente a recusa em ir buscar o que ficou para trás que mantenha o presente raso, reativo, incapaz de se surpreender com qualquer coisa que não seja repetição.
Reconhecer o passado como parte constituinte, e não como peso morto, não é nostalgia. É, antes, a única base sólida sobre a qual um futuro genuinamente novo pode ser construído. Porque só se pode transformar aquilo que primeiro se teve coragem de reconhecer como próprio.

