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Identidade

Os Espelhos que Escolhemos

Os Espelhos que Escolhemos

[!quote] Não sou quem me vejo, sou também o que refletem os olhos que escolhi.Os espelhos que escolhemos Há uma crença confortável de que somos autores exclusivos de quem somos e que a identidade nasce de dentro para fora, intocada pelo mundo ao redor. É uma crença bonita. É também, em grande parte, uma ilusão. Somos moldados, dia após dia, pelas presenças que aceitamos manter perto de nós. E poucas escolhas humanas carregam tanto peso silencioso quanto a escolha de com quem caminhamos. A amizade como espelho, não como acessório Aristóteles, na Ética a Nicômaco, distinguia três tipos de amizade: a baseada na utilidade, a baseada no prazer e a baseada na virtude. Esta última, a única capaz de durar, porque nela amamos o outro pelo que ele é, não pelo que ele nos dá. As amizades de utilidade e prazer se desfazem quando a utilidade acaba ou o prazer se esgota. Mas a amizade virtuosa funciona como um espelho ético: o amigo verdadeiro nos mostra quem somos capazes de ser, e por isso Aristóteles chamava o amigo de “um outro eu”. Essa ideia tem uma consequência prática que raramente levamos a sério: se o amigo é um espelho, cada amizade que cultivamos está, silenciosamente, formando a imagem que fazemos de nós mesmos e a imagem que os outros fazem de nós também. Sêneca, em suas cartas a Lucílio, foi ainda mais direto: recomendava avaliar com cuidado antes de admitir alguém à amizade, mas, após admitido, entregar-se inteiramente, porque conviver com quem é mesquinho nos torna, aos poucos, mesquinhos, e conviver com quem é elevado nos eleva sem que percebamos o processo acontecendo. Não se trata de calcular utilidade nas relações, como um mercado de trocas. Trata-se de reconhecer algo mais sutil: absorvemos os valores, os hábitos mentais e até o tom emocional de quem nos cerca. A companhia não é pano de fundo da vida, é parte ativa da escultura que vamos sendo. A companhia certa como disciplina de caráter Confúcio, nos Analectos, tratava a escolha de companhias quase como uma disciplina moral, não como acaso do destino. Ensinava que era melhor não ter amigo algum do que cultivar relações com quem nos é inferior em virtude, não por arrogância, mas porque a convivência constante desgasta ou fortalece o caráter de forma quase imperceptível, como a água que talha a pedra. Para Confúcio, o indivíduo se cultiva na rede de relações que sustenta, pai e filho, governante e súdito, amigo e amigo e é justamente ao honrar bem cada um desses vínculos que a pessoa se torna plenamente humana. Não existe, nessa visão, um “eu” acabado que depois entra em relações; existe um eu que se completa por meio delas. A consciência da própria imagem no encontro genuíno Qual é a imagem que projetamos e a consciência que temos dela? O filósofo Martin Buber propôs uma distinção que ilumina bem essa questão: existem relações “Eu-Isso”, em que tratamos o outro como objeto útil ou obstáculo, e relações “Eu-Tu”, em que o outro é encontrado em sua plenitude, e nesse encontro genuíno também nos encontramos a nós mesmos. Para Buber, não existe um “eu” isolado que depois decide se relacionar. O eu só se torna real no momento do encontro verdadeiro com o outro. Amizades vividas como "Eu-Isso", em que a outra pessoa é apenas plateia, utilidade ou espelho de vaidade, deformam sutilmente a própria imagem que fazemos de nós mesmos, porque nos acostumam a existir como personagem, nunca como presença inteira. Ter consciência da própria imagem, sob essa luz, não é vaidade nem preocupação superficial com aparência: é reconhecer que somos, em parte substancial, o reflexo das relações genuínas que sustentamos e que essas relações também nos revelam aos outros antes mesmo que tenhamos escolhido conscientemente como queremos ser vistos. Escolher com atenção Escolher amizades com atenção, então, não é frieza calculista. É um ato de cuidado comigo mesmo e com quem escolho amar. Significa perguntar, de tempos em tempos: quem sou eu, ao lado desta pessoa? Que versão de mim essa convivência traz à superfície a mais generosa, a mais ansiosa, a mais verdadeira, a mais pequena? Não somos ilhas autossuficientes que depois decidem, por caridade, admitir visitantes. Somos, desde o início, seres relacionais. A ética grega, a sabedoria chinesa e a filosofia do diálogo convergem nesse ponto, cada tradição com seu vocabulário próprio. E, se é assim, a pergunta não é apenas “quem eu sou?”, mas também, com igual seriedade: “com quem estou me tornando quem sou?” Quem você é e quem são seus amigos?