Filosofia Clínica e Psicologia Analítica

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Música

O que a música sabe de nós

O que a música sabe de nós

Todo mundo tem uma música que o desmonta. Às vezes basta o primeiro acorde, no rádio do carro ou no fone de ouvido, e algo se mexe por dentro antes que a gente consiga dizer o quê. Uma saudade sem endereço, uma alegria sem motivo, uma vontade súbita de ligar para alguém. Nenhuma palavra foi dita, nenhum argumento foi apresentado, e mesmo assim fomos alcançados num lugar onde as palavras raramente chegam. Isso é estranho, se pensarmos bem. Uma sequência de vibrações no ar não deveria ter tanto poder. E, no entanto, ela tem. A música atravessa defesas que nenhum conselho atravessa. Este ensaio é sobre esse poder, e sobre uma atitude diante da vida que nasceu muito próxima dele: o romantismo. Não o romantismo das flores e jantares à luz de velas, embora ele também caiba aqui, mas uma maneira de olhar o mundo que se recusa a vê-lo como coisa banal. A arte que não imita Arthur Schopenhauer não tinha fama de homem alegre. Sua filosofia é conhecida pelo pessimismo: para ele, por trás de tudo o que existe pulsa uma força cega e incansável, a que chamou de Vontade. Ela nos empurra a desejar, a buscar, a querer sempre mais. Quando conseguimos o que queríamos, vem o tédio; quando não conseguimos, vem o sofrimento. A vida, nessa visão, oscila como um pêndulo entre os dois. Mas, em meio a esse quadro sombrio, Schopenhauer abriu uma janela. Em O Mundo como Vontade e Representação, ele sustentou que a arte nos oferece uma trégua. Diante do belo, por alguns instantes, paramos de querer. Deixamos de olhar as coisas pelo que podem nos dar e passamos simplesmente a contemplá-las. E entre todas as artes, a música ocupava para ele um lugar à parte. A pintura, a escultura e a poesia, dizia, representam o mundo: imitam formas, cenas, personagens. A música não imita nada. Ela não fala sobre a tristeza ou sobre a alegria; ela soa como a própria tristeza, a própria alegria, sem rosto e sem história. Por isso Schopenhauer a considerava a mais profunda das artes: enquanto as outras falam das sombras, a música falaria da essência. Talvez seja isso que sentimos quando uma melodia nos atinge sem pedir licença. Ela não descreve o que vivemos. Ela nos devolve o movimento interno daquilo que vivemos, antes de qualquer explicação. Romantizar o mundo Na mesma época, um jovem alemão olhava para a vida por outro ângulo. Novalis, pseudônimo de Friedrich von Hardenberg, foi poeta, filósofo e, curiosamente, também engenheiro de minas. Viveu apenas 28 anos. Antes disso, perdeu a noiva, Sophie, ainda adolescente, e transformou essa dor em alguns dos textos mais delicados do romantismo, como os Hinos à Noite. Novalis deixou uma ideia que resume bem o espírito romântico: o mundo precisa ser romantizado. E ele explicou o que queria dizer com isso. Romantizar é dar ao comum um sentido elevado, ao cotidiano um ar de mistério, ao conhecido a dignidade do desconhecido, ao finito uma aparência de infinito. Repare que não se trata de fugir da realidade. Novalis não pede que inventemos um mundo melhor do que este. Pede que olhemos este mesmo mundo com outros olhos. A xícara de café, a voz de alguém que amamos, o caminho de volta para casa: nada disso muda. O que muda é a profundidade com que somos capazes de enxergar. Para ele, a música era um modelo dessa transformação. Chegou a anotar, em seus fragmentos, que toda doença é um problema musical, e que a cura seria uma solução musical. Uma frase estranha, quase enigmática, mas que aponta para algo que hoje reconhecemos com facilidade: quando a vida perde o ritmo, quando as partes de nós deixam de soar juntas, algo adoece. O que se perde quando tudo fica óbvio Há um tipo de cansaço que não vem do excesso de trabalho, mas da falta de encanto. É quando os dias ficam iguais, as pessoas viram funções, os lugares viram trajetos e a própria vida passa a parecer uma lista de tarefas. Nada está exatamente errado. Só que nada mais nos toca. Schopenhauer talvez dissesse que esse é o mundo visto apenas pelos olhos da Vontade: tudo é meio para alguma coisa, nada vale por si. Novalis diria que é um mundo desromantizado, achatado, reduzido ao que já se sabe dele. Os dois, por caminhos diferentes, apontam para a mesma saída. Não a fuga, mas a mudança de olhar. A música nos ensina essa mudança quase sem esforço. Durante alguns minutos, ela suspende a pressa, reorganiza o tempo e nos lembra que sentir não é perda de tempo, é uma forma de conhecer. E o romantismo, entendido assim, não é ingenuidade nem sentimentalismo. É uma decisão: a de não aceitar que a vida seja só o que parece ser à primeira vista. A música como espelho Talvez a música seja também um dos espelhos mais honestos que temos. As canções que escolhemos em certos momentos dizem muito sobre o que estamos atravessando. A música que repetimos depois de um término, a que colocamos para dirigir sozinhos, a que pedimos numa festa, a que nos faz chorar sem aviso. Cada uma revela algo que nem sempre conseguimos nomear. Prestar atenção nisso é um pequeno exercício de autoconhecimento. Não para analisar tudo, mas para escutar. Às vezes uma melodia diz que estamos mais tristes do que admitimos. Às vezes diz que estamos mais vivos do que pensávamos. E há algo ainda mais simples. Ouvir uma música inteira, sem fazer outra coisa ao mesmo tempo, virou quase um gesto raro. Fazer isso de propósito, de vez em quando, já é uma forma de romantizar a vida no sentido de Novalis: dar a um momento comum a atenção que normalmente reservamos às coisas extraordinárias. Schopenhauer nos mostra que a música pode nos libertar, ainda que por instantes, da roda incansável do querer, e que ela fala de nós num nível anterior às palavras. Novalis nos lembra que o encanto não está escondido num outro mundo, mas espera, neste mesmo, por um olhar disposto a encontrá-lo. Um era pessimista, o outro, apaixonado. Mas ambos concordariam numa coisa: uma vida sem música e sem algum romantismo não é mais realista, é apenas mais pobre. Talvez a pergunta não seja se temos tempo para a beleza, mas o que estamos perdendo de nós mesmos quando deixamos de reservar tempo para ela. E você, qual é a música que te desmonta? Existe alguma canção que te acompanha em fases importantes da vida, ou um pequeno ritual que deixa os seus dias um pouco mais "romantizados"? Conte nos comentários ou nas nossas redes. Quem sabe a sua música vira a trilha de outra pessoa também.